segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Tinham

Ela não queria nada,
Mas sonhava ter tudo
Quando ele vinha.

Ele sonhava o mundo,
Mas não queria mais nada
Quando a tinha.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O barbeador

Entrei pelo quarto, a porta do banheiro estava aberta e o zunido do barbeador confirmava que ele estava lá.

Cumprimentei-o com um beijo, já esperando sentir o seu tão confortável e nostálgico cheiro. E, só para ter mais ainda a sua atenção em mim, perguntei o que já sabia: O que está fazendo, vô?

― Estou testando este novo barbeador elétrico, sua avó já estava reclamando que a Gillette estava a machucar muito a minha pele ― disse ele, em seu costumeiro tom sereno, mostrando-me o barbeador novo e inclinando a sua face, aproximando-a de mim, para que eu visse o excelente trabalho que acabara de fazer.

Reparei em sua pele, no quanto ela era realmente frágil. É como se estivesse sido desgastada pela idade e agora restara apenas uma fina camada. Cobrindo ela, estavam alguns chumaços dispersos da barba branca, denunciando sua vista já não mais tão certeira.

― Posso lhe ajudar? ― perguntei sem hesitar, como uma criança que se propõe a brincar de barbearia.

Com um sorriso satisfeito, ele me cedeu o barbeador e se pôs ereto, com o rosto firme apontando para mim, entregando-se confiante aos meus cuidados.

Comecei a minha tarefa, primeiro receosa, com medo de machucá-lo. Depois fui me entendendo com a máquina e já sabia até o ângulo de inclinação necessário para cada área do rosto. Empenhada, inspecionava minuciosamente cada pelo escondido abaixo do nariz, no queixo, no canto da boca e até a costeleta aparei com destreza.

Ao terminar, ele se virou para o espelho, para conferir o resultado. Passou levemente a mão de um lado para o outro, de baixo para cima, de cima para baixo, deu dois tapinhas nas bochechas e constatou: Ótimo trabalho!

Nesse momento, lançou um olhar contente que me fisgou à sua alma. Fiquei a admirá-lo, reparando em sua expressão, olhando-o com olhar de saudade, aquele que tenta apreender cada detalhe porque sabe que eles são cruelmente fugazes e não poderão ser guardados para serem admirados mais tarde.

Firme, ele pegou em minhas mãos, saímos do banheiro e ele foi me narrando mais uma de suas tantas anedotas.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

La petite mort

Se você vier mansinho, eu morro.
Se vier falando, assim, bem baixinho, eu morro.
Se vier do seu jeitinho, esse jeitinho que eu gosto, eu morro.

Se você vier olhando de frente, sorrindo de lado, eu morro.
Se vier moreno, queimado de sol, eu morro.
Se vier com o cabelo sem cortar e a barba por fazer, eu morro.

Se você vier firme e me beijar suave, eu morro.
Se vier quente assoprar em meu pescoço, eu morro.
Se vier leve, em pele, se aproximar do meu corpo, eu morro.

Se você vier, e vier, e vier, e vier, eu morro.
Tanto e um pouco, eu morro.
Eu juro que morro.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Gostei

Gostei. Gostei dele. Gostei do homem, do jeito, do personagem. Gostei da experiência e de experimentar. Gostei do gosto e do gosto. Gostei do que senti por ele e do que senti com ele. Gostei de ser vítima da saudade e, mais ainda, sua assassina. Gostei da mão, de cada toque. Gostei dos pés, das pernas, dos pelos, do peito e do cabelo. Gostei da voz e do que dizia. Gostei dos olhos e de como me via, de como pedia os meus olhos também. Gostei de ser navegante e de ser navegada, de explorar e de ser explorada. Gostei do telefone, do banco, da rua, do quarto, do armário. Gostei da gota de suor. Gostei do braço, do abraço, da boca, do beijo. Gostei da careta ao som e da mão, em mim, em compasso. Gostei de querer e ter, de ter e querer. Gostei dos olhos se perdendo e da língua me encontrando. E dos olhos também gostei cada abrir e cada fechar. Da boca também gostei cada gritar e sussurrar, cada sorriso e cada gemido. Gostei quando gostava. Gostei de saber que gostava e o quanto gostava. Gostei de gostar e de cada gostar. Gostei.

E é a saudade de tanto gostar o que agora mais me faz chorar. Porque aquele por quem esse gostar nutri agora não existe mais. Do amante fez-se o desconhecido, como se faz do vivo defunto.

Tão de repente assim matamos o homem e o sentimento, e o pó vira saudade. Inútil saudade, porque por um morto; incomoda saudade, porque por um morto que, em algum lugar, ainda existe.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Será

Será que
Quando o meu mundo voltar
Você volta com ele?

Quando o samba for só batida,
A marcha, só do operário;
Quando o quarto não for mais a casa inteira
Nem a casa inteira, o nosso quarto.

Será que
Quando a festa terminar
Acabará a nossa também?

Antes, agora, depois,
Eu, você, nós dois,
Tudo misturado
Num espaço congelado.

Nosso tempo estava parado,
Agora o meu vai continuar.

Será que
Quando o meu ritmo compassar
Você vai acompanhar?

Quando a loucura não couber mais,
O dia-a-dia renascer,
Quando a vida emudecer
E tudo mais voltar ao sem sentido.

Será que
Quando não houver mais será
A gente ainda
Será?

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Homem-animal

Habito um purgatório entre o que quero e o que devo. Sou homem-animal, condenado à fina corda entre o sentido e a razão. Sou eu a própria corda sobre um abismo infinito.
E me percorro, corro, de um lado ao meu oposto. Se, em mim, sou medo e dúvida, negar-me é me atirar ao vazio. Porque sou homem-animal - e ser corda é o meu porquê. Ser a corda bamba, o entre, a transição.
Sou meu próprio fardo.
Quero querer o que devo, devo suportar o meu querer. Em todos os sentidos, em toda a razão. Mas sou ainda mais instinto, dolorosa emoção. Sou angústia, inquietação, paixão. Sou um sentir sem cessar, que sobeja e me afoga.
Quero e querendo sou o que não quero. Penso e não faço, cedo. Faço o que não devo, retrocedo.
Pendo ao animal e sinto suas dores sem sentido, por elas sofro. Mas sofro apenas porque pendo ao homem. Pendo ao homem e as entendo como dores, e sofro por as sentir.
E sofro. Sofro porque sou corda. A mais fina e mais pesada corda. Porque sou homem-animal, fadado a mim mesmo.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A vez que a sorte vem

Às vezes a sorte é tanta
Q’inté a desgraça pode vir fazer pirraça
Que a gente olha ela na cara, faz é graça
E, sem praça, toca ela desgraçar outro lugar.

Até tem vezes que tudo começa já no fim,
O fim insiste em ser meio,
O meio, meio fim.

Mas daí, se a gente chama,
A sorte vem.
Faz uma prece, ela aparece
E acaba por pôr tudo no lugar.

Que, quando quer, pode o mundo desandar,
Tudo ficar longe, difícil de alcançar,
Que a gente dá um jeito,
Cria força, esquece o medo,
Fecha os olhos e corre buscar.

Daí, num há o que possa,
Num tem bicho que ameaça,
Nem capeta que assusta,
Nem coisa feita ou encosto
Que não possa desencostar.

Quando quer, o mundo muda.
Faz velha mexeriqueira ficar muda,
Muda seca virar flor,
Moça feia virar donzela
E até com o príncipe enamorar.

Às vezes, nas vezes que quer,
A sorte vem.
Na gargalhada, no molejo
No gingado, no festejo
Vem a sorte,
Vem e faz o seu terreiro.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O espelho


Chorei até ficar cansado de ver os meus olhos no espelho.

O momento em que se encara o espelho.
Você, olhando nos seus olhos.
O pensamento parece ir além, mas a mente está tomada pela dúvida:

O que é isto aqui?

O eu, o outro, o espelho, lá fora, aqui dentro, o outro no espelho, o eu no outro, o outro no eu, o eu lá fora, o espelho aqui dentro.

O . e . s . p . e . l . h . o .

Chorei por ter despedaçado as flores que estão no canteiro.

sábado, 4 de abril de 2009

Ideologia de fachada

Texto para o curta "Uma bomba de chocolate amargo"

Chega uma hora que tudo vem à tona, não tem como fugir, se esconder. Tudo o que lhe incomoda, toda a ausência ignorada, todo o vazio disfarçado se fazem encarar. A vida inteira buscando ser alguém e aos vinte reconheço-me um pedaço mal tirado de um esboço de ninguém.

Nada que me é externo faz sentido, nem perto do mínimo suficiente para valer a pena. Então o problema está lá fora? Não. A resposta invade como um trator, atropelando todas pseudoverdades criadas e acumuladas até agora. Tanta ausência só pode ser oriunda de uma mente mal formada. O problema é o interior, vazio como um vácuo, triste, desconsolado, decepcionado com o que mostrou para si.

E em um mar de possibilidades me vejo com uma bigorna de desmotivação presa aos pés. O pior é que torço para afundar, que afunde logo então.

Sim, não sei lidar com nada, na-da. Pareço uma criança mimada que, ao ver seu doce roubado, ou sai esperneando sem rumo ou se tranca no quarto esperando a fada trazê-lo de volta. Assim sou eu, com meu doce de verdade arrancado de mim.

O tempo todo lutando para me descobrir, para ser o que julgo mais bonito ser, crer no que julgo mais interessante crer e me descubro nua, de qualquer ser e crer. Despida de valores, ideais, ideologias. Nada do que tinha era meu, tudo apropriado, por ser apropriado. Tudo fachada. Minha ideologia? Ideologia de fachada. Perdida, inventei o meu achar, construí outra casa, mas não encontrei a minha de fato.

Então restou só uma fina camada de um pensamento mal elaborado encobrindo e disfarçando um enorme conjunto oco de ideias.

Agora, perdida, tento continuar, mas sem caminho não sei para onde. Luto entre voltar a fechar os olhos e seguir, a instalar o chip de produção em massa já tão bem difundido, ou continuar a torturante busca pelo talvez inexistente mapa de mim.

“Minhas idéias são apenas fetos mal formados gerados por um deprimente oco mental”

segunda-feira, 30 de março de 2009

Estando

Eu ando,
assim,
voando.

Estou,
assim,
como queria ser.

Estou para mim.
Penso e faço por mim.
E penso.
E faço.

Assim sendo,
estou.
Estou apenas,
não sou.
Não sou,
nem pareço,
Mas, para mim,
apareço.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Diário póstumo













Falei tudo o que pensava.
Pensei sem culpa no que bem queria.
Achei-me, me conheci e depois me mostrei ao mundo,
Nua em pêlo, suor e sujeira.

Confessei minhas vontades,
Meus censuráveis sentimentos.
Pratiquei feitos heróicos,
De um herói tão egocêntrico.
Troquei o desejo da liberdade
Pela liberdade de desejo.

Amei e fui amada.
Doei e fui doada.
Em música e poesia
Me desfiz para quem queria.

Brindei à putrefação da língua hipócrita.
Cantei em comemoração ao fim sem pudor.
Dancei, ao som da candura, os passos da loucura.
Ri desesperada, até sentir dor.
Chorei compulsivamente, até gritar de horror.

Lágrimas e sangue me vestiram para a guerra.
Batalha por batalha, quebrei todos os espelhos,
Apunhalei narcísicos com seus reflexos,
Jurei de morte os falsos felizes,
Acolhi os perversos depressivos.

Falei a quem não conhecia
Tudo aquilo que me convinha.
Expus todos os meus pecados,
Como ferida aberta.
Cometi outros mais,
Me deixando em carne viva.

Fiz o que queria
Quando só o querer eu tinha.
Surpreendi a vida
Quando ela não mais me surpreendia.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Lugar-comum

Entre pensamentos confusos, entendo: o que quero é simples. Poderia rebuscar para dizer algo novo, mas o que quero é clichê. Então pegue em minhas mãos, olhe nos meus olhos, me dê um beijo apaixonado e me leve a um lugar comum qualquer.

domingo, 15 de março de 2009

O retorno

E chorei, chorei compulsivamente, clamando ao teu corpo para que voltasse, em instintivo ato, como tantas vezes chorei pelo seio de minha mãe, que sempre voltava.


Mas você não voltou.

sábado, 14 de março de 2009

Selo


O Desfruto foi contemplado com o selo "Esse blog me faz sorrir", indicado pelo C., do blog: www.casadobesouro.blogspot.com

Para quem recebeu a indicação, seguir as regras:

1. Ao receber o selo, indicar 7 coisas que te fazem sorrir
2. Indicar ao selo 7 blogs que te fazem sorrir
3. Avisar aos blogs

Sete coisas que me fazem sorrir:

1. Desfrutos
2. Amor
3. Amigos
4. Sol
5. Cerveja
6. Música
7. Histórias

Blogs indicados:

1.
www.lotusayune.blogspot.com
2.
www.euamaria.blogspot.com
3.
www.dequ4tro.blogspot.com
4.
www.vida-a-vida.blogspot.com
5.
www.boasortemm.blogspot.com
6.
www.vivi-macedo.blogspot.com
7.
www.escritoresinfames.blogspot.com

Obrigada a todos que vêm desfrutando deste blog.

Desfrutem à vontade!

terça-feira, 10 de março de 2009

A oca do eco oco

Quarenta anos, uma mulher, dois filhos.
Apaixonado, bem sucedido.
Profissão: sua vida. Sua vida: a família.

Mais uma hora extra, mais um relatório a terminar.
Um maço de cigarros, seis xícaras de café.
Exaustão, estresse, cansaço.
Discussões incessantes, celular ruidoso, reclamações, insatisfação, o chefe.

A gota

- Arruma essa gravata!

Um suspiro

Peça a peça se desfaz, desconstrução.
O sapato, sustento de toda uma vida, de muitas vidas.
As calças despem o peso da responsabilidade.
A camisa, guardiã de tantas preocupações.

Botão por botão, amarra por amarra.
Desabotoa, o dinheiro.
Desabotoa, o tempo.
Desabotoa, o espaço.
Desabotoa, a vida.
Desabotoa, o real.

Finalmente a gravata, apenas a gravata.
Impecável, única, fio solitário, elo transitório do tudo para o nada, do alguém para o ninguém.

A luz se revela e o mundo renega.

Final da vida, princípio da existência.

domingo, 8 de março de 2009

Fala vazia

Quando eu lembro
Quantas conversas já comecei,
Só por onda,
Quantas bobagens já disse,
Tão de tonta,

Para em fresta deixar escapar
O que não consegui falar,
Para um pouco revelar
Do que não tive coragem de mostrar,

Para chamar sua atenção,
Fingindo distração.
Tão livre, tão louca,
Tão pouca.

Quantos gritos para dentro já gritei,
Deixando escapar um sussurro,
Que não me denunciaria.
Escondida em segurança
No vazio do sentido.

Controlando-me sem saber
Para dizer somente o que você já sabia.
Reprimindo, por medo do fogo, o calor,
Me deixando fria.

Funções fáticas,
Expressões que não expressam,
Conversas que nada falam,
Pelo excesso do que dizer.

E eu gorfava letras em vão,
Com toda a razão,
Só por que sabia
Que, no embaralho das frases,
Você percebia
Os casos ao acaso que causei,
As conversas sem propósito que provoquei.

Palavras minhas
Que foram lhe encontrar,
No lugar do meu corpo,
Que queria ir,
Mas deixava estar.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Toma


Toma-me emprestada.

Toma-me pela mão,
Para roubar.
Toma minha mão,
Para tocar.

Toma meus olhos,
Toma-me um olhar.
Toma meus braços,
Toma-me um abraço.
Toma minha boca,
Toma-me um beijo.
Toma meu corpo,

E toma-me inteira.

Em goles,
Em doses,
Com gelo,
D
e
r
r
e
t
o
.

Toma-me para ti,
Toma até o fim.
Então, toma:
Toma-me
E toma.

segunda-feira, 2 de março de 2009

E eu nem vi

Já escureceu
E eu nem vi.

A festa já acabou,
O almoço em família do domingo também.

Eu nem vi
E já é hora de dormir e esperar,
Esperar a semana, de novo, passar
Para poder, enfim, despertar.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Regozijo dos loucos











Quando louca deliro paz. Em paz, saúdo a loucura.
Quero os devaneios, a paixão perturbada, a intensidade que só a insanidade traz.
Quero a doença dos malucos, dos poetas, dos amantes.
Razão a deixo em ilusão, em distantes desvarios, em sonhos tórpidos onde já cansei de ser em mim.
Quero a beleza do sentir, quero o sentir em cada poro.
Verdade, só a minha. Pensamentos, só do corpo, em ligações rítmicas, aceleradas, som pulsante e música frenética.
Quero dançar a vida, em molejo de mulata, ginga de capoeira doido. Dança dos sentidos, sem nenhum sentido.
Por assim dizer, não dizer nada. Mergulhar em sentimento, mudo.
Viver tudo e em tudo.
Me jogar ao mundo e me entregar ao regozijo dos loucos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Sobre a vida ou sobre o circo

Já dizia Shakespeare: “A vida é um palco”. Acho que ele não conhecia o picadeiro. Ou não conhecia a mesma vida que eu. Acho que não conhecia o picadeiro.
A vida é um picadeiro.
Antes mesmo do nosso espetáculo começar já somos arremessados por uma grande vagina nas mãos do palhaço branco, que faz questão de nos pôr de ponta cabeça e estapear nosso bumbum ao léu. Certo que, ao invés de rirmos, choramos e é o que faremos em boa parte dos números adiante. Afinal, quem tem que rir são os espectadores, não os palhaços. E tem coisa mais engraçada do que um choro? Daqueles bem compulsivos, então, repleto de caretas e soluços?
Pena que esqueceram a lona. Não temos lona. Até poderia pensar que, por isso, na verdade nem é circo, é manicômio. Mas, não, se fosse não teria, assim, tanta graça. Também não importam tanto assim as lonas quando se tem um espetáculo tão interessante, com palhaços tão eficientes. Duvido que algum espectador já tenha reclamado alguma vez. Cada dia nascem palhaços mais capacitados, e nós nos aprimoramos a cada número. O esforço é tanto que se faz das últimas apresentações o grand finale de cada um, com direito a treme-treme, distúrbio de personagem, descontrole, delírios e ataques. Um prato cheio para os amantes da boa comédia.
Pena que os comediantes saiam de cena em caixa preta. Preto não é engraçado. Eu quero sair em número de mágica, desaparecendo ou, no máximo, virando pó, pó de pirlimpimpim, que já o nome é bem divertido.
Enquanto isso, continuo no picadeiro, fazendo piada, sendo piada, vivendo a piada. Por que é isso que é a vida mesmo: uma piada, uma piada mal contada sem a grande sacada final. Que engraçado.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Não me venha

Não me venha com o que devo e o que não devo.
Não me venha com a moral correta e intolerante, com o julgamento pré-estipulado, com as normas pré-concebidas.
Não me venha com modelos prontos, porque são cegos, surdos e frígidos.
Não me venha com simplismos hipócritas. Seus moldes não suportariam minha complexidade.
Não me venha com o certo, nem com o errado. Só existe o que fiz e o que, ainda, não fiz.
Não me venha com conveniências comuns, bom-senso, verdades incontestáveis, regras gerais.
Não me venha com manuais a seguir, meus valores eu os crio depois.
Crie os seus valores, mas os crie para você.
Não concorde comigo, não me entenda, me respeite.
Sou dona de mim, vivo para mim.
Construo eu o meu caminho, não sigo por nada pronto.
Não há, para mim, direita ou esquerda, vou para onde bem entender ao meu bel-prazer, e vou para frente.
Então não me venha, me deixe ir e vá também.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Odniac

Caminhava em falsos montes,
Por entre cordas e frágeis pontes.
Percebeu-se em fino fio:

Abaixo,
Abismo infinito.
Acima,
Céu de nuvens baixas.

Mas saltitava e continuava,
Rumo a que não mais sabia.

Uma gota em sua face,
Era a chuva que chorava,
Tantas outras escorriam,
Era o choro que chovia.

Fez-se então a tempestade,
Começou a ventania.

Na corda já tão bamba ela desequilibrava:

Cambaleio
Para um lado.
Cambaleio
Para o outro.

Vem o vento, sopra forte
E a derruba feito pluma.

Ao nada vai caindo,
Olhando ao precipício.
Desespera, esperneia, grita
E continua a cair.

Já sem força para ir contra,
Se deixa entregar.
Acolhida pelo ar, começa a dançar.

Se vira para o céu,
Não mais longe que o abismo:

A chuva já passou.
Entre as nuvens, vê o sol.
Sente o calor que acaricia
E de baixo vai acima.

Olha lá ela no ar,
Como um peixe em um mar.
Está caindo ao contrário,
Aprendeu a voar.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Em caixão

Às vezes tenho a impressão de que nenhum passado jamais será resolvido e de fato esquecido em sua emoção. Nem esquecido, nem superado. Como um punhal que ao menor espectro de vaga lembrança é remexido dentro do peito. E faz voltar a dor, ferindo intensamente, menos pela sensação do que pela mera presença incômoda, que se mostra só para fazer lembrar que estou a sua mercê, impotente, como um corpo ainda vivo em carne exposta sendo devorado lentamente pelas larvas.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Desfruto

Tira a fruta do pé,
A polpa da fruta,
O suco da polpa
E não poupa, nada,
Do pé ao fruto.