quinta-feira, 9 de julho de 2009

O barbeador

Entrei pelo quarto, a porta do banheiro estava aberta e o zunido do barbeador confirmava que ele estava lá.

Cumprimentei-o com um beijo, já esperando sentir o seu tão confortável e nostálgico cheiro. E, só para ter mais ainda a sua atenção em mim, perguntei o que já sabia: O que está fazendo, vô?

― Estou testando este barbeador elétrico, sua avó já estava reclamando que a Gillette estava a machucar muito a minha pele ― disse ele, em seu costumeiro tom sereno, mostrando-me o novo barbeador e inclinando a sua face, aproximando-a de mim, para que eu visse o excelente trabalho que acabara de fazer.

Reparei em sua pele, no quanto ela era realmente frágil. É como se estivesse sido desgastada pela idade e, agora, restara apenas uma fina camada. Cobrindo-a, estavam alguns chumaços dispersos da barba branca, denunciando sua vista já não mais tão certeira.

― Posso lhe ajudar? ― perguntei sem hesitar, como uma criança que se propõe a brincar de barbearia.

Com um sorriso satisfeito, ele me cedeu o barbeador e se pôs ereto, com o rosto firme apontado para mim, entregando-se confiante aos meus cuidados.

Comecei a minha tarefa, primeiro receosa, com medo de machucá-lo. Depois, fui me entendendo com a máquina e já sabia até o ângulo de inclinação necessário para cada área do rosto. Empenhada, inspecionava minuciosamente cada pelo escondido abaixo do nariz, no queixo, no canto da boca e até a costeleta aparei com destreza.

Ao terminar, ele se virou para o espelho, para conferir o resultado. Passou levemente a mão de um lado para o outro, de baixo para cima, de cima para baixo, deu dois tapinhas nas bochechas e constatou: Ótimo trabalho!

Nesse momento, lançou um olhar contente que me fisgou à sua alma. Fiquei a admirá-lo, reparando em sua expressão, olhando-o com olhar de saudade, aquele que tenta apreender cada detalhe porque sabe que eles são cruelmente fugazes e não poderão ser guardados para serem admirados mais tarde.

Firme, pegou em minhas mãos, saímos do banheiro e ele foi me narrando mais uma de suas tantas anedotas.

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