Entrei pelo quarto, a porta do banheiro estava aberta e o zunido do barbeador confirmava que ele estava lá.
Cumprimentei-o com um beijo, já esperando sentir o seu tão confortável e nostálgico cheiro. E, só para ter mais ainda a sua atenção em mim, perguntei o que já sabia: O que está fazendo, vô?
― Estou testando este novo barbeador elétrico, sua avó já estava reclamando que a Gillette estava a machucar muito a minha pele ― disse ele, em seu costumeiro tom sereno, mostrando-me o barbeador novo e inclinando a sua face, aproximando-a de mim, para que eu visse o excelente trabalho que acabara de fazer.
Reparei em sua pele, no quanto ela era realmente frágil. É como se estivesse sido desgastada pela idade e agora restara apenas uma fina camada. Cobrindo ela, estavam alguns chumaços dispersos da barba branca, denunciando sua vista já não mais tão certeira.
― Posso lhe ajudar? ― perguntei sem hesitar, como uma criança que se propõe a brincar de barbearia.
Com um sorriso satisfeito, ele me cedeu o barbeador e se pôs ereto, com o rosto firme apontando para mim, entregando-se confiante aos meus cuidados.
Comecei a minha tarefa, primeiro receosa, com medo de machucá-lo. Depois fui me entendendo com a máquina e já sabia até o ângulo de inclinação necessário para cada área do rosto. Empenhada, inspecionava minuciosamente cada pelo escondido abaixo do nariz, no queixo, no canto da boca e até a costeleta aparei com destreza.
Ao terminar, ele se virou para o espelho, para conferir o resultado. Passou levemente a mão de um lado para o outro, de baixo para cima, de cima para baixo, deu dois tapinhas nas bochechas e constatou: Ótimo trabalho!
Nesse momento, lançou um olhar contente que me fisgou à sua alma. Fiquei a admirá-lo, reparando em sua expressão, olhando-o com olhar de saudade, aquele que tenta apreender cada detalhe porque sabe que eles são cruelmente fugazes e não poderão ser guardados para serem admirados mais tarde.
Firme, ele pegou em minhas mãos, saímos do banheiro e ele foi me narrando mais uma de suas tantas anedotas.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
O barbeador
Desfrutado por Thais às 19:33
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8 mordida(s):
Amora, amor, você já está pronta para trabalhar como barbeira entaum!
Pronto! Nem sei qual é a sua profissão, mas aposto que você é a mocinha que tinge o cabelo da mulherada no salaum, néam?
Vamos mudar de vida! Barbearia dá mais dinheiro e mais bofe!
Um beijo,
Maddyrain
Lindo... conheci minhas vós (uma ainda tenho comigo), mas não os meus vôs. Esse teu texto me deu uma saudade daquelas coisas que eu não vivi...
Nossa, senti uma saudade absurda do meu vovô. Ele resolveu dormir, faz tempo. O seu texto tá lindo. E terno.
(Seu desejo é uma ordem, postei. rs Desfrute!)
Meu beijo
que delícia de lembrança essa! senti tão minha... em tuas palavras!
lindo! sou tua fã tbm e vc sabe disso!!!!!!
beijão e saudades de ti
Amora, você descreveu em perfeitamente o que eu sinto todos os dias com meu avô. Essa "saudade do futuro", necessidade de aproveitar cada minuto. Muito bonito.
Thá, bonita sua maneira de nos alertar à riqueza de aproveitar a simplicidade da vida!
beijos
Eu gostaria de ter tido avós mais presentes...E espero que eu possa fazer história para meus filhos e netos...rs...
Lindo!
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