Habito um purgatório entre o que quero e o que devo. Sou homem-animal, condenado à fina corda entre o sentido e a razão. Sou eu a própria corda sobre um abismo infinito.
E me percorro, corro, de um lado ao meu oposto. Se, em mim, sou medo e dúvida, negar-me é me atirar ao vazio. Porque sou homem-animal - e ser corda é o meu porquê. Ser a corda bamba, o entre, a transição.
Sou meu próprio fardo.
Quero querer o que devo, devo suportar o meu querer. Em todos os sentidos, em toda a razão. Mas sou ainda mais instinto, dolorosa emoção. Sou angústia, inquietação, paixão. Sou um sentir sem cessar, que sobeja e me afoga.
Quero e querendo sou o que não quero. Penso e não faço, cedo. Faço o que não devo, retrocedo.
Pendo ao animal e sinto suas dores sem sentido, por elas sofro. Mas sofro apenas porque pendo ao homem. Pendo ao homem e as entendo como dores, e sofro por as sentir.
E sofro. Sofro porque sou corda. A mais fina e mais pesada corda. Porque sou homem-animal, fadado a mim mesmo.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Homem-animal
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segunda-feira, 13 de abril de 2009
A veiz que a sorte vem
Às veiz a sorte é tanta
Q’inté a desgraça pode vir fazer pirraça
Que a gente olha ela na cara, faz é graça
E, sem praça, toca ela desgraçá outro lugar.
Até tem veiz que tudo começa já no fim,
O fim, insiste em ser meio,
O meio, meio fim.
Mas daí, se a gente chama,
A sorte vem.
Faz uma prece, ela aparece
E acaba por pôr tudo no lugar.
Que, quando qué, pode o mundo desandá,
Tudo ficar longe, difícil de alcançá,
Que a gente dá um jeito,
Cria força, esquece o medo,
Fecha os olhos e corre buscá.
Daí, num há o que possa,
Num tem bicho que ameaça,
Nem capeta que assusta,
Nem coisa feita ou encosto
Que não possa desencostá.
Quando qué, o mundo muda.
Faz velha mexeriqueira ficar muda,
Muda seca virar flor,
Moça feia virar donzela
E até com o príncipe enamorá.
Às veiz, nas veiz que qué,
A sorte vem.
Na gargalhada, no molejo
No gingado, no festejo
Vem a sorte,
Vem e faz o seu terreiro.
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terça-feira, 7 de abril de 2009
O espelho
O momento em que se encara o espelho.
O que é isto aqui?
O eu, o outro, o espelho, lá fora, aqui dentro, o outro no espelho, o eu no outro, o outro no eu, o eu lá fora, o espelho aqui dentro.
O . e . s . p . e . l . h . o .
Chorei por ter despedaçado as flores que estão no canteiro.
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sábado, 4 de abril de 2009
Ideologia de fachada
Chega uma hora que tudo vem à tona, não tem como fugir, se esconder. Tudo o que lhe incomoda, toda a ausência ignorada, todo o vazio disfarçado se fazem encarar. A vida inteira buscando ser alguém e aos quarenta reconheço-me um pedaço mal tirado de um esboço de ninguém.
Nada que me é externo faz sentido, nem perto do mínimo suficiente para valer a pena. Então o problema está lá fora? Não. A resposta invade como um trator, atropelando todas pseudoverdades criadas e acumuladas até agora. Tanta ausência só pode ser oriunda de uma mente mal formada. O problema é o interior, vazio como um vácuo, triste, desconsolado, decepcionado com o que mostrou para si.
E em um mar de possibilidades me vejo com uma bigorna de desmotivação presa aos pés. O pior é que torço para afundar, que afunde logo então.
Sim, não sei lidar com nada, na-da. Pareço uma criança mimada que, ao ver seu doce roubado, ou sai esperneando sem rumo ou se tranca no quarto esperando a fada trazê-lo de volta. Assim sou eu, com meu doce de verdade arrancado de mim.
O tempo todo lutando para me descobrir, para ser o que julgo mais bonito ser, crer no que julgo mais interessante crer, e me descubro nua, de qualquer ser e crer. Despida de valores, ideais, ideologias. Nada do que tinha era meu, tudo apropriado, por ser apropriado. Tudo fachada. Minha ideologia? Ideologia de fachada. Perdida, inventei o meu achar, construí outra casa, mas não encontrei a minha de fato.
Então restou só uma fina camada de um pensamento mal elaborado encobrindo e disfarçando um enorme conjunto oco de ideias.
Agora, perdida, tento continuar, mas sem caminho não sei para onde. Luto entre voltar a fechar os olhos e seguir — a instalar o chip de produção em massa já tão bem difundido — e continuar a torturante busca pelo talvez inexistente mapa de mim.
“Minhas idéias são apenas fetos mal formados gerados por um deprimente oco mental”
Desfrutado por Thais às 14:47 0 mordida(s)
