Habito um purgatório entre o que quero e o que devo. Sou homem-animal, condenado à fina corda entre o sentido e a razão. Sou eu a própria corda sobre um abismo infinito.
E me percorro, corro, de um lado ao meu oposto. Se, em mim, sou medo e dúvida, negar-me é me atirar ao vazio. Porque sou homem-animal - e ser corda é o meu porquê. Ser a corda bamba, o entre, a transição.
Sou meu próprio fardo.
Quero querer o que devo, devo suportar o meu querer. Em todos os sentidos, em toda a razão. Mas sou ainda mais instinto, dolorosa emoção. Sou angústia, inquietação, paixão. Sou um sentir sem cessar, que sobeja e me afoga.
Quero e querendo sou o que não quero. Penso e não faço, cedo. Faço o que não devo, retrocedo.
Pendo ao animal e sinto suas dores sem sentido, por elas sofro. Mas sofro apenas porque pendo ao homem. Pendo ao homem e as entendo como dores, e sofro por as sentir.
E sofro. Sofro porque sou corda. A mais fina e mais pesada corda. Porque sou homem-animal, fadado a mim mesmo.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Homem-animal
Desfrutado por Thais às 17:52
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