sábado, 4 de abril de 2009

Ideologia de fachada

Texto para o curta "Uma bomba de chocolate amargo"

Chega uma hora que tudo vem à tona, não tem como fugir, se esconder. Tudo o que lhe incomoda, toda a ausência ignorada, todo o vazio disfarçado se fazem encarar. A vida inteira buscando ser alguém e aos quarenta reconheço-me um pedaço mal tirado de um esboço de ninguém.

Nada que me é externo faz sentido, nem perto do mínimo suficiente para valer a pena. Então o problema está lá fora? Não. A resposta invade como um trator, atropelando todas pseudoverdades criadas e acumuladas até agora. Tanta ausência só pode ser oriunda de uma mente mal formada. O problema é o interior, vazio como um vácuo, triste, desconsolado, decepcionado com o que mostrou para si.

E em um mar de possibilidades me vejo com uma bigorna de desmotivação presa aos pés. O pior é que torço para afundar, que afunde logo então.

Sim, não sei lidar com nada, na-da. Pareço uma criança mimada que, ao ver seu doce roubado, ou sai esperneando sem rumo ou se tranca no quarto esperando a fada trazê-lo de volta. Assim sou eu, com meu doce de verdade arrancado de mim.

O tempo todo lutando para me descobrir, para ser o que julgo mais bonito ser, crer no que julgo mais interessante crer, e me descubro nua, de qualquer ser e crer. Despida de valores, ideais, ideologias. Nada do que tinha era meu, tudo apropriado, por ser apropriado. Tudo fachada. Minha ideologia? Ideologia de fachada. Perdida, inventei o meu achar, construí outra casa, mas não encontrei a minha de fato.

Então restou só uma fina camada de um pensamento mal elaborado encobrindo e disfarçando um enorme conjunto oco de ideias.

Agora, perdida, tento continuar, mas sem caminho não sei para onde. Luto entre voltar a fechar os olhos e seguir — a instalar o chip de produção em massa já tão bem difundido — e continuar a torturante busca pelo talvez inexistente mapa de mim.

“Minhas idéias são apenas fetos mal formados gerados por um deprimente oco mental”

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