segunda-feira, 23 de março de 2009

Diário póstumo













Falei tudo o que pensava.
Pensei sem culpa no que bem queria.
Achei-me, me conheci e depois me mostrei ao mundo,
Nua em pêlo, suor e sujeira.

Confessei minhas vontades,
Meus censuráveis sentimentos.
Pratiquei feitos heróicos,
De um herói tão egocêntrico.
Troquei o desejo da liberdade
Pela liberdade de desejo.

Amei e fui amada.
Doei e fui doada.
Em música e poesia
Me desfiz para quem queria.

Brindei à putrefação da língua hipócrita.
Cantei em comemoração ao fim sem pudor.
Dancei, ao som da candura, os passos da loucura.
Ri desesperada, até sentir dor.
Chorei compulsivamente, até gritar de horror.

Lágrimas e sangue me vestiram para a guerra.
Batalha por batalha, quebrei todos os espelhos,
Apunhalei narcísicos com seus reflexos,
Jurei de morte os falsos felizes,
Acolhi os perversos depressivos.

Falei a quem não conhecia
Tudo aquilo que me convinha.
Expus todos os meus pecados,
Como ferida aberta.
Cometi outros mais,
Me deixando em carne viva.

Fiz o que queria
Quando só o querer eu tinha.
Surpreendi a vida
Quando ela não mais me surpreendia.

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