terça-feira, 10 de março de 2009

A oca do eco oco

Quarenta anos, uma mulher, dois filhos.
Apaixonado, bem sucedido.
Profissão: sua vida. Sua vida: a família.

Mais uma hora extra, mais um relatório a terminar.
Um maço de cigarros, seis xícaras de café.
Exaustão, estresse, cansaço.
Discussões incessantes, celular ruidoso, reclamações, insatisfação, o chefe.

A gota

- Arruma essa gravata!

Um suspiro

Peça a peça se desfaz, desconstrução.
O sapato, sustento de toda uma vida, de muitas vidas.
As calças despem o peso da responsabilidade.
A camisa, guardiã de tantas preocupações.

Botão por botão, amarra por amarra.
Desabotoa, o dinheiro.
Desabotoa, o tempo.
Desabotoa, o espaço.
Desabotoa, a vida.
Desabotoa, o real.

Finalmente a gravata, apenas a gravata.
Impecável, única, fio solitário, elo transitório do tudo para o nada, do alguém para o ninguém.

A luz se revela e o mundo renega.

Final da vida, princípio da existência.

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