segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Sobre a vida ou sobre o circo

Já dizia Shakespeare: “A vida é um palco”. Acho que ele não conhecia o picadeiro. Ou não conhecia a mesma vida que eu. Acho que não conhecia o picadeiro.
A vida é um picadeiro.
Antes mesmo do nosso espetáculo começar já somos arremessados por uma grande vagina nas mãos do palhaço branco, que faz questão de nos pôr de ponta cabeça e estapear nosso bumbum ao léu. Certo que, ao invés de rirmos, choramos; e é o que faremos em boa parte dos números adiante. Afinal, quem tem de rir são os espectadores, não os palhaços. E tem coisa mais engraçada do que um choro? Daqueles bem compulsivos, então, repleto de caretas e soluços?
Pena que esqueceram a lona. Não temos lona. Até poderia pensar que, por isso, na verdade nem é circo, é manicômio. Mas, não, se fosse não teria, assim, tanta graça. Também não importam tanto assim as lonas quando se tem um espetáculo tão interessante, com palhaços tão eficientes. Duvido que algum espectador já tenha reclamado alguma vez. Cada dia nascem palhaços mais capacitados, e nós nos aprimoramos a cada número. O esforço é tanto que se faz das últimas apresentações o grand finale de cada um, com direito a treme-treme, distúrbio de personagem, descontrole, delírios e ataques. Um prato cheio para os amantes da boa comédia.
Pena que os comediantes saiam de cena em caixa preta. Preto não é engraçado. Eu quero sair em número de mágica, desaparecendo ou, no máximo, virando pó, pó de pirlimpimpim, que já o nome é bem divertido.
Enquanto isso, continuo no picadeiro, fazendo piada, sendo piada, vivendo a piada. Por que é isso que é a vida mesmo: uma piada, uma grande piada mal contada sem a sacada final. Que engraçado.

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