quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Regozijo dos loucos











Quando louca deliro paz. Em paz, saúdo a loucura.
Quero os devaneios, a paixão perturbada, a intensidade que só a insanidade traz.
Quero a doença dos malucos, dos poetas, dos amantes.
Razão, a deixo em ilusão, em distantes desvarios, em sonhos tórpidos onde já cansei de ser em mim.
Quero a beleza do sentir, quero o sentir em cada poro.
Verdade, só a minha. Pensamentos, só do corpo; em ligações rítmicas, aceleradas, som pulsante e música frenética.
Quero dançar a vida, em molejo de mulata, ginga de capoeira doido. Dança dos sentidos, sem nenhum sentido.
Por assim dizer, não dizer nada. Mergulhar em sentimento, mudo.
Viver tudo e em tudo.
Me jogar ao mundo e me entregar ao regozijo dos loucos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Sobre a vida ou sobre o circo

Já dizia Shakespeare: “A vida é um palco”. Acho que ele não conhecia o picadeiro. Ou não conhecia a mesma vida que eu. Acho que não conhecia o picadeiro.
A vida é um picadeiro.
Antes mesmo do nosso espetáculo começar já somos arremessados por uma grande vagina nas mãos do palhaço branco, que faz questão de nos pôr de ponta cabeça e estapear nosso bumbum ao léu. Certo que, ao invés de rirmos, choramos; e é o que faremos em boa parte dos números adiante. Afinal, quem tem de rir são os espectadores, não os palhaços. E tem coisa mais engraçada do que um choro? Daqueles bem compulsivos, então, repleto de caretas e soluços?
Pena que esqueceram a lona. Não temos lona. Até poderia pensar que, por isso, na verdade nem é circo, é manicômio. Mas, não, se fosse não teria, assim, tanta graça. Também não importam tanto assim as lonas quando se tem um espetáculo tão interessante, com palhaços tão eficientes. Duvido que algum espectador já tenha reclamado alguma vez. Cada dia nascem palhaços mais capacitados, e nós nos aprimoramos a cada número. O esforço é tanto que se faz das últimas apresentações o grand finale de cada um, com direito a treme-treme, distúrbio de personagem, descontrole, delírios e ataques. Um prato cheio para os amantes da boa comédia.
Pena que os comediantes saiam de cena em caixa preta. Preto não é engraçado. Eu quero sair em número de mágica, desaparecendo ou, no máximo, virando pó, pó de pirlimpimpim, que já o nome é bem divertido.
Enquanto isso, continuo no picadeiro, fazendo piada, sendo piada, vivendo a piada. Por que é isso que é a vida mesmo: uma piada, uma grande piada mal contada sem a sacada final. Que engraçado.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Não me venha

Não me venha com o que devo e o que não devo.
Não me venha com a moral correta e intolerante, com o julgamento pré-estipulado, com as normas pré-concebidas.
Não me venha com modelos prontos, porque são cegos, surdos e frígidos.
Não me venha com simplismos hipócritas. Seus moldes não suportariam minha complexidade.
Não me venha com o certo, nem com o errado. Só existe o que fiz e o que, ainda, não fiz.
Não me venha com conveniências comuns, bom-senso, verdades incontestáveis, regras gerais.
Não me venha com manuais a seguir, meus valores eu os crio depois.
Crie os seus valores, mas os crie para você.
Não concorde comigo, não me entenda, me respeite.
Sou dona de mim, vivo para mim.
Construo eu o meu caminho, não sigo por nada pronto.
Não há, para mim, direita ou esquerda, vou para onde bem entender ao meu bel-prazer, e vou para frente.
Então não me venha, me deixe ir e vá também.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Odniac

Caminhava em falsos montes,
Por entre cordas e frágeis pontes.
Percebeu-se em fino fio:

Abaixo,
Abismo infinito.
Acima,
Céu de nuvens baixas.

Mas saltitava e continuava,
Rumo a que não mais sabia.

Uma gota em sua face,
Era a chuva que chorava,
Tantas outras escorriam,
Era o choro que chovia.

Fez-se então a tempestade,
Começou a ventania.
Na corda já tão bamba, ela desequilibrava:

Cambaleio
Para um lado.
Cambaleio
Para o outro.

Vem o vento, sopra forte
E a derruba feito pluma.

Ao nada vai caindo,
Olhando ao precipício.
Desespera, esperneia, grita
E continua a cair.

Já sem força para ir contra,
Se deixa entregar.
Acolhida pelo ar, começa a dançar.

Se vira para o céu,
Não mais longe que o abismo:
A chuva já passou.
Entre as nuvens, vê o sol.

Sente o calor que a acaricia
E de baixo vai acima.

Olha lá ela no ar,
Como um peixe em um mar.
Está caindo ao contrário,
Aprendeu a voar.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Em caixão

Às vezes tenho a impressão de que nenhum passado jamais será resolvido e de fato esquecido em sua emoção. Nem esquecido, nem superado. Como um punhal que ao menor espectro de vaga lembrança é remexido dentro do peito. E faz voltar a dor, ferindo intensamente, menos pela sensação do que pela mera presença incômoda, que se mostra só para fazer lembrar que estou a sua mercê, impotente, como um corpo ainda vivo em carne exposta sendo devorado lentamente pelas larvas.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Desfruto

Tira a fruta do pé,
A polpa da fruta,
O suco da polpa
E não poupa, nada,
Do pé ao fruto.