segunda-feira, 30 de março de 2009

Estando

Eu ando,
assim,
voando.

Estou,
assim,
como queria ser.

Estou para mim.
Penso e faço por mim.
E penso.
E faço.

Assim sendo,
estou.
Estou apenas,
não sou.
Não sou,
nem pareço,
Mas, para mim,
apareço.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Diário póstumo













Falei tudo o que pensava.
Pensei sem culpa no que bem queria.
Achei-me, me conheci e depois me mostrei ao mundo,
Nua em pêlo, suor e sujeira.

Confessei minhas vontades,
Meus censuráveis sentimentos.
Pratiquei feitos heróicos,
De um herói tão egocêntrico.
Troquei o desejo da liberdade
Pela liberdade de desejo.

Amei e fui amada.
Doei e fui doada.
Em música e poesia
Me desfiz para quem queria.

Brindei à putrefação da língua hipócrita.
Cantei em comemoração ao fim sem pudor.
Dancei, ao som da candura, os passos da loucura.
Ri desesperada, até sentir dor.
Chorei compulsivamente, até gritar de horror.

Lágrimas e sangue me vestiram para a guerra.
Batalha por batalha, quebrei todos os espelhos,
Apunhalei narcísicos com seus reflexos,
Jurei de morte os falsos felizes,
Acolhi os perversos depressivos.

Falei a quem não conhecia
Tudo aquilo que me convinha.
Expus todos os meus pecados,
Como ferida aberta.
Cometi outros mais,
Me deixando em carne viva.

Fiz o que queria
Quando só o querer eu tinha.
Surpreendi a vida
Quando ela não mais me surpreendia.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Lugar-comum

Entre pensamentos confusos, entendo: o que quero é simples. Poderia rebuscar para dizer algo novo, mas o que quero é clichê. Então pegue em minhas mãos, olhe nos meus olhos, me dê um beijo apaixonado e me leve a um lugar comum qualquer.

domingo, 15 de março de 2009

O retorno

E chorei, chorei compulsivamente, clamando ao teu corpo para que voltasse, em instintivo ato, como tantas vezes chorei pelo seio de minha mãe, que sempre voltava.


Mas você não voltou.

sábado, 14 de março de 2009

Selo


O Desfruto foi contemplado com o selo "Esse blog me faz sorrir", indicado pelo C., do blog: www.casadobesouro.blogspot.com

Para quem recebeu a indicação, seguir as regras:

1. Ao receber o selo, indicar 7 coisas que te fazem sorrir
2. Indicar ao selo 7 blogs que te fazem sorrir
3. Avisar aos blogs

Sete coisas que me fazem sorrir:

1. Desfrutos
2. Amor
3. Amigos
4. Sol
5. Cerveja
6. Música
7. Histórias

Blogs indicados:

1.
www.lotusayune.blogspot.com
2.
www.euamaria.blogspot.com
3.
www.dequ4tro.blogspot.com
4.
www.vida-a-vida.blogspot.com
5.
www.boasortemm.blogspot.com
6.
www.vivi-macedo.blogspot.com
7.
www.escritoresinfames.blogspot.com

Obrigada a todos que vêm desfrutando deste blog.

Desfrutem à vontade!

terça-feira, 10 de março de 2009

A oca do eco oco

Quarenta anos, uma mulher, dois filhos.
Apaixonado, bem sucedido.
Profissão: sua vida. Sua vida: a família.

Mais uma hora extra, mais um relatório a terminar.
Um maço de cigarros, seis xícaras de café.
Exaustão, estresse, cansaço.
Discussões incessantes, celular ruidoso, reclamações, insatisfação, o chefe.

A gota

- Arruma essa gravata!

Um suspiro

Peça a peça se desfaz, desconstrução.
O sapato, sustento de toda uma vida, de muitas vidas.
As calças despem o peso da responsabilidade.
A camisa, guardiã de tantas preocupações.

Botão por botão, amarra por amarra.
Desabotoa, o dinheiro.
Desabotoa, o tempo.
Desabotoa, o espaço.
Desabotoa, a vida.
Desabotoa, o real.

Finalmente a gravata, apenas a gravata.
Impecável, única, fio solitário, elo transitório do tudo para o nada, do alguém para o ninguém.

A luz se revela e o mundo renega.

Final da vida, princípio da existência.

domingo, 8 de março de 2009

Fala vazia

Quando eu lembro
Quantas conversas já comecei,
Só por onda,
Quantas bobagens já disse,
Tão de tonta.

Para em fresta deixar escapar
O que não consegui falar,
Para um pouco revelar
Do que não tive coragem de mostrar,

Para chamar sua atenção,
Fingindo distração.
Tão livre, tão louca,
Tão pouca.

Quantos gritos para dentro já gritei,
Deixando escapar um sussurro,
Que não me denunciaria.
Escondida em segurança
No vazio do sentido.

Controlando-me sem saber
Para dizer somente o que você já sabia.
Reprimindo, por medo do fogo, o calor,
Me deixando fria.

Funções fáticas,
Expressões que não expressam,
Conversas que nada falam,
Pelo excesso do que dizer.

E eu gorfava letras em vão,
Com toda a razão,
Só por que sabia
Que, no embaralho das frases,
Você percebia
Os casos ao acaso que causei,
As conversas sem propósito que provoquei.

Palavras minhas
Que foram lhe encontrar,
No lugar do meu corpo,
Que queria ir,
Mas deixava estar.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Toma


Toma-me emprestada.

Toma-me pela mão,
Para roubar.
Toma minha mão,
Para tocar.

Toma meus olhos,
Toma-me um olhar.
Toma meus braços,
Toma-me um abraço.
Toma minha boca,
Toma-me um beijo.
Toma meu corpo,

E toma-me inteira.

Em doses,
Em goles,
Com gelo,
D
e
r
r
e
t
o
.

Toma-me para ti,
Toma até o fim.
Então, toma:
Toma-me
E toma.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Regozijo dos loucos











Quando louca deliro paz. Em paz, saúdo a loucura.
Quero os devaneios, a paixão perturbada, a intensidade que só a insanidade traz.
Quero a doença dos malucos, dos poetas, dos amantes.
Razão, a deixo em ilusão, em distantes desvarios, em sonhos tórpidos onde já cansei de ser em mim.
Quero a beleza do sentir, quero o sentir em cada poro.
Verdade, só a minha. Pensamentos, só do corpo; em ligações rítmicas, aceleradas, som pulsante e música frenética.
Quero dançar a vida, em molejo de mulata, ginga de capoeira doido. Dança dos sentidos, sem nenhum sentido.
Por assim dizer, não dizer nada. Mergulhar em sentimento, mudo.
Viver tudo e em tudo.
Me jogar ao mundo e me entregar ao regozijo dos loucos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Sobre a vida ou sobre o circo

Já dizia Shakespeare: “A vida é um palco”. Acho que ele não conhecia o picadeiro. Ou não conhecia a mesma vida que eu. Acho que não conhecia o picadeiro.
A vida é um picadeiro.
Antes mesmo do nosso espetáculo começar já somos arremessados por uma grande vagina nas mãos do palhaço branco, que faz questão de nos pôr de ponta cabeça e estapear nosso bumbum ao léu. Certo que, ao invés de rirmos, choramos; e é o que faremos em boa parte dos números adiante. Afinal, quem tem de rir são os espectadores, não os palhaços. E tem coisa mais engraçada do que um choro? Daqueles bem compulsivos, então, repleto de caretas e soluços?
Pena que esqueceram a lona. Não temos lona. Até poderia pensar que, por isso, na verdade nem é circo, é manicômio. Mas, não, se fosse não teria, assim, tanta graça. Também não importam tanto assim as lonas quando se tem um espetáculo tão interessante, com palhaços tão eficientes. Duvido que algum espectador já tenha reclamado alguma vez. Cada dia nascem palhaços mais capacitados, e nós nos aprimoramos a cada número. O esforço é tanto que se faz das últimas apresentações o grand finale de cada um, com direito a treme-treme, distúrbio de personagem, descontrole, delírios e ataques. Um prato cheio para os amantes da boa comédia.
Pena que os comediantes saiam de cena em caixa preta. Preto não é engraçado. Eu quero sair em número de mágica, desaparecendo ou, no máximo, virando pó, pó de pirlimpimpim, que já o nome é bem divertido.
Enquanto isso, continuo no picadeiro, fazendo piada, sendo piada, vivendo a piada. Por que é isso que é a vida mesmo: uma piada, uma grande piada mal contada sem a sacada final. Que engraçado.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Não me venha

Não me venha com o que devo e o que não devo.
Não me venha com a moral correta e intolerante, com o julgamento pré-estipulado, com as normas pré-concebidas.
Não me venha com modelos prontos, porque são cegos, surdos e frígidos.
Não me venha com simplismos hipócritas. Seus moldes não suportariam minha complexidade.
Não me venha com o certo, nem com o errado. Só existe o que fiz e o que, ainda, não fiz.
Não me venha com conveniências comuns, bom-senso, verdades incontestáveis, regras gerais.
Não me venha com manuais a seguir, meus valores eu os crio depois.
Crie os seus valores, mas os crie para você.
Não concorde comigo, não me entenda, me respeite.
Sou dona de mim, vivo para mim.
Construo eu o meu caminho, não sigo por nada pronto.
Não há, para mim, direita ou esquerda, vou para onde bem entender ao meu bel-prazer, e vou para frente.
Então não me venha, me deixe ir e vá também.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Odniac

Caminhava em falsos montes,
Por entre cordas e frágeis pontes.
Percebeu-se em fino fio:

Abaixo,
Abismo infinito.
Acima,
Céu de nuvens baixas.

Mas saltitava e continuava,
Rumo a que não mais sabia.

Uma gota em sua face,
Era a chuva que chorava,
Tantas outras escorriam,
Era o choro que chovia.

Fez-se então a tempestade,
Começou a ventania.
Na corda já tão bamba, ela desequilibrava:

Cambaleio
Para um lado.
Cambaleio
Para o outro.

Vem o vento, sopra forte
E a derruba feito pluma.

Ao nada vai caindo,
Olhando ao precipício.
Desespera, esperneia, grita
E continua a cair.

Já sem força para ir contra,
Se deixa entregar.
Acolhida pelo ar, começa a dançar.

Se vira para o céu,
Não mais longe que o abismo:
A chuva já passou.
Entre as nuvens, vê o sol.

Sente o calor que a acaricia
E de baixo vai acima.

Olha lá ela no ar,
Como um peixe em um mar.
Está caindo ao contrário,
Aprendeu a voar.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Em caixão

Às vezes tenho a impressão de que nenhum passado jamais será resolvido e de fato esquecido em sua emoção. Nem esquecido, nem superado. Como um punhal que ao menor espectro de vaga lembrança é remexido dentro do peito. E faz voltar a dor, ferindo intensamente, menos pela sensação do que pela mera presença incômoda, que se mostra só para fazer lembrar que estou a sua mercê, impotente, como um corpo ainda vivo em carne exposta sendo devorado lentamente pelas larvas.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Desfruto

Tira a fruta do pé,
A polpa da fruta,
O suco da polpa
E não poupa, nada,
Do pé ao fruto.